Pelo que tem de coesão, síntese, sofisticação e criatividade o disco "Trio", do bandolinista Hamilton de Holanda, lançado neste ano, resgatou do ostracismo o Trilha-Transe, depois de quase um ano de ausência. Neste retorno, pretendo deixar o espaço mais abrangente, com foco mais amplo, menos segmentado.
Ao lado do violonista Yamandú Costa, Hamilton de Holanda é um dos músicos brasileiros mais importantes da atualidade na área instrumental, especialmente da geração que surgiu sob influência direta do choro. Aliás, não conheço bandolinista brasileiro que não tenha nascido no berço do choro, porque este instrumento de timbre lírico, no Brasil, é quase sinônimo do refinado gênero. No entanto, há tempos, o artista tem procurado inserir o bandolim em diferentes contextos musicais, basta conhecer a trilogia "Brasilianos", na qual faz experimentos diversos com outros gêneros, dialogando com o jazz contemporâneo, acompanhado por um quinteto de primeira, que inclui o gaitista Gabriel Grossi.
Na atualidade, Hamilton é também um dos músicos brasileiros mais respeitados no exterior, assim como Egberto Gismonti foi nos anos 70 e 80.
Em "Trio", como o próprio nome diz, o bandolinista, que já foi comparado a Jimi Hendrix, optou por uma sonoridade coesa, com harmonias e melodias acessíveis, sem experimentos ou excessos. Ele é acompanhado por André Vasconcellos (contrabaixo acústico) e Thiago da Serrinha (percussão). O disco seduz na primeira audição. De tão agradáveis, os temas parecem familiares, sem falar na capa que é caprichada e prepara o ouvinte para este mergulho musical no que há de melhor na música brasileira.
Produzido por Marcos Portinari e por Hamilton de Holanda, "Trio", se comparado aos outros discos do artista, remete ligeiramente à proposta apresentada em "Música das Nuvens e do Chão", de 2004. O som é quase sempre vibrante e objetivo. Porém, ao contrário daquele, a maioria das composições deste são autorais. Das 12, somente três não são assinadas pelo bandolinista, incluindo a versão de "O que será", de Chico Buarque. A formação instrumental também é diferente, sendo "Trio" mais compacto e, por isso, possui sonoridade mais rústica, no melhor sentido, ou seja, menos é mais.
Como não encontrei vídeos do artista acompanhado dos músicos que tocam em "Trio", optei por uma performance solo dele interpretando "Canto de Ossanha", de Baden e Vinícius.
Ainda me lembro de quando topei pela primeira vez com um disco da dupla de violonistas Duofel, formada pelo paulista Luiz Bueno e pelo alagoano Fernando Melo. O ano era 1995. Adquiri o CD “Espelho das Águas”, lançado pelo extinto selo Velas (criado por Ivan Lins) e gravado em parceria com o percussionista indiano Badal Roy, que proporcionou um leve sabor oriental ao disco, uma cortesia do som de sua tabla. Aliás, o experiente músico já tinha tocado com nada mais nada menos que John McLaughlin, Ornette Coleman, Miles Davis, entre outros feras do jazz. Naquele dia, levei também na sacola o disco “Storytelling” de Naná Vasconcelos. Os dois discos formaram a trilha sonora da minha primeira viagem à Chapada Diamantina realizada no mesmo ano.
O som do Duofel me chamou a atenção pela criatividade e vitalidade. Uma música vibrante, colorida e melódica, com sotaque universal, mas com muitas referências brasileiras. Ecos de folk, blues, baião, jazz, rock, samba e música caipira estão presentes nas composições. A musicalidade do duo nos transporta a qualquer paisagem do mundo, sem deixar de nos trazer de volta ao Brasil.
Além de tudo, os timbres originais, as melodias envolventes e a elaborada performance dos músicos encantam. É difícil encontrar um trabalho paralelo no vasto leque da música instrumental brasileira. Talvez o som de André Geraissati tenha algumas semelhanças com a música criada pelo Duofel, em razão dos timbres e dos efeitos nas cordas dos violões, sendo André mais introspectivo.
A história do Duofel começa no final dos anos 70, quando os músicos se conheceram em São Paulo, tocando na banda de rock progressivo Boissucanga . O grupo acabou, mas a amizade de Luiz e Fernando permaneceu, determinando a formação da dupla. Em 85, o Duofel ganhou destaque ao acompanhar a cantora Tetê Espíndola, na canção “Escrito nas Estrelas”, vencedora do Festival dos Festivais. O primeiro disco deles, “Cores do Brasil”, foi lançado em 1990. O mais recente, “Duofel plays The Beatles”, é do ano passado, e foi apontado no site da dupla como uma viagem de volta às origens, pois ambos eram apaixonados pela obra da banda de rock de Liverpool, considerada a mais importante de todos os tempos. E, acredite, as recriações da dupla para o manjado repertório dos Beatles são criativas e inusitadas.
Todos os discos do Duofel são interessantes, mas indico, especialmente, o já citado “Espelho das Águas” (1994), “Atenciosamente Duofel” (1999), “Duofel 20” (Ao vivo - 2000), “Precioso” (2005) e “Duofel plays The Beatles” (2011). Em 2007, tive a felicidade de assistir a um concerto deles em São Luís, que guardo na memória. E no palco, garanto, eles são imbatíveis.
Numa tarde junina de 2003, estava passeando pelo Centro Histórico de São Luís quando topei com o músico maranhense Itaércio Rocha, radicado há anos em Curitiba, integrante do grupo Mundaréu, lá do Paraná. Entre um papo e outro, ele me presenteou com os dois primeiros discos do Terra Sonora (o CD de 1997 e “Continentes” gravado em 2001), um grupo também das terras de Paulo Leminski, que recria com impressionante primazia canções e melodias instrumentais de várias partes do mundo. Vou ser eternamente grato por esta cortesia.
O Terra Sonora produz um som único no Brasil, sem precedentes no país. Surgido em 1994, é integrado por músicos de formação erudita (pelo menos, a maioria), responsáveis pela elaboração de arranjos originais para temas étnicos e tradicionais de todos os continentes do planeta. É um trabalho minucioso. Rústico, porém elaborado com requinte. Uma preciosidade. Nos seus cinco discos, há músicas de 67 regiões do mundo, incluindo países como Egito, Romênia, Noruega, China, Colômbia, Moldávia, Grécia, Irlanda, Zimbábue, Butão, Marrocos, Mongólia, Armênia, Camboja, Haiti, Turquia e Moçambique. A combinação de instrumentos também é singular: viola caipira, derbak, violino, flautas, entre outros. São diversas referências musicais num único grupo em perfeita harmonia.
A pesquisa musical é de responsabilidade de Plínio Silva, flautista especializado em Música Antiga (medieval, renascentista e barroca). Integra também o Terra Sonora gente como o famoso violeiro Rogério Gulin e a vocalista Liane Guariente, considerada uma das melhores vozes de Curitiba. Aliás, o trabalho vocal é primoroso, um componente especial tanto pela pesquisa fonética de diversas línguas, quanto pelas diferentes técnicas usadas para cada canção.
No repertório, também estão presentes elementos tradicionais brasileiros, como modas de viola, a exemplo das composições de Rogério Gulin e Roberto Corrêa, sambas de roda da Bahia e temas de tradição nordestina, além de composições do lendário José Eduardo Gramani, idealizador e fundador do Ânima e diretor musical do primeiro disco do Terra Sonora. E por falar nisso, os discos do grupo têm produção caprichada. Todos vêm com fotos e livreto explicativo, algo semelhante ao padrão dos trabalhos do Ânima. E mais: recomendo a audição de todos os CDs. Inclusive, do quase solo de Rogério Gulin, “Orvalho”, lançado em 2009, no qual é acompanhado pelo Terra Sonora.
É importante saber que existe muita vida musical inteligente no Brasil, além das obviedades presentes na mídia. A melhor e pior música convivem no país em condições desiguais. Mas vamos deixar de lamentações. E como aperitivo, o Trilha Transe posta um tema do violeiro Rogério Gulin acompanhado pelo Terra Sonora, é claro, no lançamento de “Orvalho”.
O mineiro Ivan Vilela (fotos), ao lado dos violeiros Paulo Freire (São Paulo), Ricardo Matsuda (São Paulo) e Rogério Gulin (Paraná), é um dos responsáveis, na atualidade, pela valorização da viola caipira fora do contexto da música rural brasileira. Eles inseriram – cada qual a seu modo – este instrumento nos palcos da MPB, da música étnica, da música instrumental e da música erudita. Isso, sem perder a identidade tradicional da viola.
E vale lembrar: Ivan, Paulo e Ricardo já fizeram parte do Anima, em diferentes momentos. O grupo de Campinas dialoga com a música medieval européia e com o rico cancioneiro de tradição oral de diferentes regiões do Brasil. Por sua vez, Rogério é integrante do paranaense Terra Sonora, que realiza uma minuciosa e original pesquisa da música tradicional de países de todos os continentes. Posteriormente, vou escrever sobre este grupo, que já possui cinco ótimos discos lançados.
Com formação acadêmica, Ivan Vilela (fotos) é um dos principais nomes da música instrumental brasileira, com impecáveis trabalhos lançados. Dele, eu recomendo pelo menos dois discos: o premiado “Paisagens” (1999) e o quase solo “Dez Cordas” (2007). No primeiro, Ivan Vilela acompanhado de diversos músicos incursiona, por meio de composições autorais, pelas sonoridades do interior do Brasil, com molde universal e sofisticado. No outro, ele interpreta com arranjos originais temas conhecidos de diversos compositores brasileiros, principalmente da MPB, a exemplo de Chico Buarque, Flávio Venturini, Almir Sater e Edu Lobo. Há ainda duas músicas dos Beatles: “Eleanor Rigby” e “Whyle My Guitar Gently Weeps”. Procure já. Ouça também a coletânea "Violeiros do Brasil", lançada pelo selo Núcleo Contemporâneo há mais de uma década, que reuniu peças interpretadas ao vivo por diversos craques da viola caipira, entre os quais Ivan Vilela, Paulo Freire, Almir Sater, Braz da Viola e Zé Coco Riachão.
Há mais ou menos três anos Ivan se apresentou em São Luís, ao lado da cantora Ná Ozzetti. Eu tive o privilégio de assistir a esta apresentação, que está guardada confortavelmente na memória.
Por volta de 1988, o experiente violinista, compositor e regente José Eduardo Gramani (1944 - 1998) formou o grupo Anima (alma, em latim), na cidade de Campinas (SP), com o intuito de explorar, principalmente, o repertório do período barroco, com instrumentos de época. No entanto, a pesquisa do grupo terminou por mergulhar em tempos mais remotos, aproximando-se do repertório medieval europeu, bem como do enorme leque de canções da cultura popular brasileira de tradição oral.
Em 95, ele começou uma pesquisa sobre a rabeca, passando a estudar a forma de confecção deste instrumento artesanal com mestres rabequeiros de várias partes do Brasil. Até 1998, Gramani (3ª foto) viajou por quase todo o país em busca de construtores do instrumento. Quando morreu, deixou uma coleção de cerca de 40 exemplares de rabecas. Esta pesquisa foi determinante para a elaboração do conceito musical do Anima, que passou a se diferenciar da linha adotada pela maioria dos grupos brasileiros de Música Antiga (medieval, renascentista e barroca), do Brasil e do mundo, que seguem um molde de época.
Além de Gramani, participaram da primeira formação do Anima: Isa Taube (voz), Luiz Fiaminghi (rabecas), Patrícia Gatti (cravo), Dalga Larrondo (percussão), Ivan Vilela (viola brasileira) e Valeria Bittar (flautas). O primeiro disco, “Espiral do Tempo” (hoje, um clássico da música brasileira contemporânea), foi lançado em 1998, mesmo ano da morte de Gramani, vitimado por um câncer.
Se formos fazer uma comparação esdrúxula, talvez Gramani tenha sido o Chico Science da música erudita brasileira. Destruiu fronteiras, aproximou elementos aparentemente díspares, combinou substâncias musicais e instrumentos de diferentes origens, criando um som único e inovador. Assim como Science, Gramani morreu no seu auge criativo, acredito.
Depois da partida de Gramani, Luiz Fiaminghi assumiu a direção do Anima dando continuidade ao valioso trabalho fundamentado pelo mestre. No segundo disco, "Especiarias" (2000), Paulo Freire substituiu Ivan Vilela. Em seguida, o mesmo foi substituído por Ricardo Matsuda - culminando na terceira formação do grupo (2ª, 5ª e 6ª fotos) - que tocou em “Amares” (2003) e “Espelho” (2006), trabalho que teve uma versão ao vivo em DVD. Com uma nova formação, o grupo lançou em 2010 o disco "Donzela Guerreira".
Além destes trabalhos, o Anima é responsável pela execução do projeto/CD "Teatro do Descobrimento" (1999), idealizado pela meio-soprano Anna Maria Kieffer, lançado para as comemorações dos 500 anos do descobrimento do Brasil. Há, ainda, o disco solo de Gramani, "Mexericos da Rabeca" (1997), com composições suas escritas especialmente para as rabecas e executadas com o acompanhamento da cravista Patrícia Gatti.
Atualmente, o grupo é composto por Marlui Miranda (voz e instrumentos indígenas), Paulo Dias (percussão afro-brasileira), Gisela Nogueira (viola de arame), Marilia Vargas (soprano) e Silvia Ricardino (harpa). Da primeira formação, permanecem Luiz Fiaminghi e Valéria Bittar (1ª e 4ª fotos).
O Anima sempre procurou unir instrumentos aparentemente díspares e deslocados no espaço e no tempo, como cravo, flautas barrocas e indígenas, rabeca, zarb e bendir (tambores originários do Irã e da Turquia, respectivamente), viola caipira, berimbau, triângulo, entre outros. Hoje, o grupo inclui uma harpa. Desse modo, podemos pensar de maneira genérica que a viola caipira seria o equivalente ao alaúde e a rabeca substituiria o violino, assim como os demais instrumentos rústicos corresponderiam a outros eruditos.
Para se ter uma ideia do ecletismo do trabalho do grupo, o primeiro CD, "Espiral do Tempo", trouxe músicas como "Tartarassa", atribuída ao trovador provençal Pierre Cardenal (1180 ? – 1278 ?), ao lado de "Tirana da Rosa", da tradição oral brasileira. No mesmo disco, a canção "Chovendo Na Roseira", de Tom Jobim, aparece de forma incidental no decorrer da interpretação da música de origem francesa "Se Jamais Jour", do século XIV, de autoria anônima. O segundo CD também trouxe músicas do folclore brasileiro, como "Tupinambá", "Moreninha" e "Canto das Fiandeiras", ao lado de "Tu Gitanas Que Adevinas" (anônimo, séc. XIV) ou "Blanca Niña", da tradição oral sefaradita (denominação dos judeus que habitavam a Península Ibérica durante a Idade Média).
Apesar de a pesquisa do Anima parecer inédita, o trabalho de aliar a tradição da Música Antiga com o repertório da tradição oral brasileira não é absolutamente inédito, porque nos anos 70, o grupo pernambucano Quinteto Armorial já caminhava nesta direção, embora não executasse propriamente Música Antiga européia e sim música regional do Nordeste com moldes eruditos medievais e renascentistas.
O Anima foi uma das minhas trilhas sonoras dos anos 2000 e, inclusive, um dos objetos de pesquisa do meu trabalho de conclusão da especialização em Jornalismo Cultural pela Universidade Federal do Maranhão, terminado em 2005. Esta é a primeira postagem no blog de um grupo brasileiro. Como aperitivo, deixo um vídeo da formação anterior e outro da atual.