Mostrando postagens com marcador Iraque. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Iraque. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

O elo musical de árabes e judeus



O instrumentista israelense Yair Dalal é um dos mais importantes e representativos alaudistas do Oriente Médio na atualidade. Descendente de uma família de judeus orientais originária de Bagdá, no Iraque, que fugiu para Israel após 1948, Yair Dalal se destaca tanto pela qualidade do trabalho musical quanto pela intensa militância em favor da paz entre árabes e judeus. Inclusive, o grupo que o acompanha é geralmente formado por músicos das duas etnias. É importante lembrar que antes da criação de Israel, o Iraque possuía uma das maiores e mais tradicionais comunidades judaicas do Oriente Médio. Há tempos não existem mais judeus no Iraque e os árabes cristãos, hoje, estão indo embora.




Ora rústico ora sofisticado, o som de Yair Dalal faz um profundo mergulho nas raízes musicais árabes e judaicas da região. A música dele, mesmo quando hipnótica, é estimulante. Além do alaúde, o artista canta e toca violino. O israelense também se dedica à preservação da herança musical iraquiana e dos beduínos do deserto do Negev (Israel). Gravou inclusive um disco com músicos beduínos, “Azazme” (2002), no qual é acompanhado pelo Tarab Ensemble. Já o disco “Shacharut – Live in The Desert” (2000) foi registrado ao vivo em pleno Negev com a finalidade de captar e oferecer a vasta e enigmática atmosfera presente nestas planícies. Em alguns trabalhos de Yair Dalal, existem também resquícios musicais de outras regiões do Oriente, a exemplo de “Silan” (1998), que traz elementos indianos.




Nos últimos anos, ele tem colaborado com o grupo de música antiga (medieval, renascentista e barroca) Hespèrion XXI, dirigido pelo catalão Jordi Savall, que em discos recentes fez incursões pela musicalidade do Oriente Médio, como nos CDs “Istambul” (2009), “Orient-Occident” (2006) e “Jerusalém” (2009). Além de Jordi Savall, Yair Dalal já colaborou com gente como Zubin Mehta, L. Shankar, Hamza El Din, Omar Faruk Tekbilek, Ensemble Kaboul, Adel Salameh, The Oslo Philharmonic Orchestra, Kamerata Jerusalem Orchestra, entre outros.




Em dezembro de 2002, Yair Dalal esteve no Brasil, quando participou da programação do IV Mercado Cultural, realizado em Salvador, na Bahia. Um amigo meu assistiu e foi por meio dele que fui apresentado à obra deste músico israelense. No vídeo selecionado, além de uma performance solo, ele conta um curioso caso envolvendo o alaúde.








quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Rahim Alhaj: a tradição do alaúde


O Iraque é famoso pelas guerras ali travadas nas recentes décadas. O país árabe também é conhecido por ter sido, na Antiguidade, a Mesopotâmia, berço das primeiras civilizações: sumérios, babilônios, assírios, caldeus, entre outros povos, habitaram aquele território. Muito depois, os árabes ocuparam essa terra atravessada pelos rios Tigre e Eufrates, formada por montanhas no Norte e por enormes desertos no Centro e no Sul. Lá, no século VIII, fundaram Bagdá, a cidade bela e mítica dos contos de “As Mil e Uma Noites”.  Segundo o historiador Albert Hourani, autor de "Uma História dos Povos Árabes", a capital foi a mais populosa cidade do mundo na Idade Média. Bagdá não merecia tanto sofrimento. Melhor seria se tivesse mantido os encantos do mundo lúdico da literatura.


Mas o Iraque é também notório por ser a terra de grandes músicos de alaúde, a exemplo do mestre Munir Bashir (1930-1997), que conquistou fama e prestígio em todo o mundo árabe e na Europa, executando música tradicional e erudita e combinando elementos árabes com de outras culturas, como sons indianos e flamencos. Na atualidade, um discípulo e ex-aluno de Munir Bashir, dá continuidade a esta tradição do país. Trata-se do virtuoso Rahim Alhaj .


Formado no Instituto de Música de Bagdá, onde nasceu, o artista atualmente possui cidadania norte-americana. Reside no estado do Novo México, desde o começo dos anos 90, quando fugiu do Iraque, devido à perseguição política imposta por Saddam Hussein. O alaudista militava contra o ditador sanguinário. Instrumentista e compositor, Rahim também possui graduação em literatura árabe. No exílio, antes de conquistar reconhecimento, chegou a trabalhar como atendente numa famosa rede de fast food. 


Alaúde em árabe é chamado de oud. Quando precedido de artigo, vira al oud, que culminou na palavra alaúde.  No Ocidente, este instrumento é exótico, embora seja o mais popular de cordas do Oriente Médio e tenha dado origem, indiretamente, ao violão, durante a ocupação moura na Península Ibérica.



Com sete CDs lançados, Rahim Alhaj é especialista nas improvisações solo chamadas de taqsim. A linha erudita dele se difere, por exemplo, da adotada por alaudistas também renomados na Europa como os libaneses Rabih Abou-Khalil e Marcel Khalife, que optaram seguir a corrente jazzística. Nos EUA, Rahim Alhaj já colaborou com o guitarrista Bill Frisell , com a banda de rock R.E.M, entre outros artistas renomados.

Do ilustre alaudista iraquiano recomendo a audição de quatro discos: “Friendship” (2005), que teve a participação do grupo de cordas norte-americano Sadaga Quartet, “When the Soul is Settled: Music of Iraq” (2006), registro dos taqsins também gravados por Munir Bashir, e “Home Again” (2007).  Há ainda o disco “Ancient Sounds” (2009), feito em parceria com o indiano Amjad Ali Khan (foto 3), vencedor do Grammy na categoria de melhor disco de world music tradicional.