domingo, 10 de junho de 2012

Phronesis: a energia do jazz contemporâneo




Phronesis é uma palavra grega que significa sabedoria ou inteligência. Phronesis é também um trio formado por músicos escandinavos e britânicos, radicado em Londres, que ganha, aos poucos, destaque na cena jazzística contemporânea. O editor da revista Jazzwise Magazine, Jon Newey, descreveu o grupo como o mais excitante e criativo trio de piano da atualidade.
                                                                     
O mar do Phronesis é repleto de tormentas e não oferece trégua durante a travessia. É jazz europeu cerebral e contemporâneo. Às vezes, extrapola na contundência, em desconstruções musicais demasiadamente cruas e tensas. Enfim, o trio é uma máquina de energia acústica. Para quem entende a audição musical como uma forma de experiência sensorial e até de transcendência, o som do grupo é obrigatório.




Criada em 2005, a banda é liderada pelo baixista dinamarquês Jasper Hoiby. Completam o time Ivo Neame (piano) e Anton Egar (bateria). O grupo lançou dois discos: “Alive” (2010) e “Walking Dark” (2012). O baterista Mark Guiliana tocou no primeiro disco, que, como o nome sugere, foi gravado ao vivo. Só para lembrar: Mark participou de dois dos melhores discos do baixista israelense Avishai Cohen: “Continuo” (2006) e “Gently Disturbed” (2008). Aliás, para quem gosta do som do baixista israelense (especialmente dos discos feitos em trio), Phronesis é um prato cheio.






O segundo CD do Phronesis é mais melódico e elaborado que o primeiro. E tem mais: o baterista sueco Anton Egar não fica a dever a Mark Guiliana, no uso de contratempos inusitados. Para se ter uma ideia do que o trio é capaz, deixo o vídeo da música “Abraham’s New Gift”, com o feroz Mark na bateria.








segunda-feira, 30 de abril de 2012

Todas as cores do Duofel






Ainda me lembro de quando topei pela primeira vez com um disco da dupla de violonistas Duofel, formada pelo paulista Luiz Bueno e pelo alagoano Fernando Melo.  O ano era 1995. Adquiri o CD “Espelho das Águas”, lançado pelo extinto selo Velas (criado por Ivan Lins) e gravado em parceria com o percussionista indiano Badal Roy, que proporcionou um leve sabor oriental ao disco, uma cortesia do som de sua tabla. Aliás, o experiente músico já tinha tocado com nada mais nada menos que John McLaughlin, Ornette Coleman, Miles Davis, entre outros feras do jazz. Naquele dia, levei também na sacola o disco “Storytelling” de Naná Vasconcelos. Os dois discos formaram a trilha sonora da minha primeira viagem à Chapada Diamantina realizada no mesmo ano.

O som do Duofel me chamou a atenção pela criatividade e vitalidade. Uma música vibrante, colorida e melódica, com sotaque universal, mas com muitas referências brasileiras. Ecos de folk, blues, baião, jazz, rock, samba e música caipira estão presentes nas composições. A musicalidade do duo nos transporta a qualquer paisagem do mundo, sem deixar de nos trazer de volta ao Brasil.





 Além de tudo, os timbres originais, as melodias envolventes e a elaborada performance dos músicos encantam. É difícil encontrar um trabalho paralelo no vasto leque da música instrumental brasileira. Talvez o som de André Geraissati tenha algumas semelhanças com a música criada pelo Duofel, em razão dos timbres e dos efeitos nas cordas dos violões, sendo André mais introspectivo.

A história do Duofel começa no final dos anos 70, quando os músicos se conheceram em São Paulo, tocando na banda de rock progressivo Boissucanga . O grupo acabou, mas a amizade de Luiz e Fernando permaneceu, determinando a formação da dupla. Em 85, o Duofel ganhou destaque ao acompanhar a cantora Tetê Espíndola, na canção “Escrito nas Estrelas”, vencedora do Festival dos Festivais. O primeiro disco deles, “Cores do Brasil”, foi lançado em 1990. O mais recente, “Duofel plays The Beatles”, é do ano passado, e foi apontado no site da dupla como uma viagem de volta às origens, pois ambos eram apaixonados pela obra da banda de rock de Liverpool, considerada a mais importante de todos os tempos. E, acredite, as recriações da dupla para o manjado repertório dos Beatles são criativas e inusitadas.





Todos os discos do Duofel são interessantes, mas indico, especialmente, o já citado “Espelho das Águas” (1994), “Atenciosamente Duofel” (1999), “Duofel 20” (Ao vivo - 2000), “Precioso” (2005) e “Duofel plays The Beatles” (2011). Em 2007, tive a felicidade de assistir a um concerto deles em São Luís, que guardo na memória. E no palco, garanto, eles são imbatíveis.











segunda-feira, 26 de março de 2012

Dead Can Dance: música sem fronteiras


Uma boa notícia: o grupo Dead Can Dance voltou à ativa em 2012. Os enigmáticos Lisa Gerrard e Brendan Perry anunciaram o retorno com a gravação de um disco novo e uma turnê por países da América do Norte e da Europa. O site da banda anuncia a volta, depois de muitos anos de ausência. O último disco do grupo foi “Spiritchaser”, lançado em 1996.


Formado no começo dos anos 80, na Austrália, o grupo logo se radicou em Londres, ajudando - ao lado de bandas como Cocteau Twins e This Mortal Coil - a fundamentar o conceito da gravadora britânica 4AD, muito respeitada à época, sempre a difundir sons etéreos de vanguarda.  O trabalho vocal de Lisa Gerrad, inclusive, possuía uma semelhança com o de Elizabeth Fraser do Cocteau Twins. Ambas utilizavam, em muitas músicas, uma língua idiossincrática.




No começo, a música do Dead Can Dance era densa e gótica, um pós-punk eletrônico, sombrio e cheio de tédio, semelhante à sonoridade das bandas britânicas do período. No entanto, no final dos anos 80 e começo dos 90 o som do grupo foi ampliado, incorporando elementos medievais e celtas em bases eletroacústicas.




Aliado ao mergulho nas profundidades da Idade Média, o Dead Can Dance incursionou por sonoridades do Oriente Médio, desbravando paisagens sonoras persas e turcas com o uso instrumentos típicos daquelas regiões, como o santoor e a darbouka. Foi o período em que o grupo lançou alguns discos maravilhosos, que se tornaram obrigatórios: "Aion" (1990), "Into The Labyrinth" (1993) e o ao vivo “Toward The Within” (1994). Este último é também um filme com registro de um show do grupo. É possível comprar o DVD em sites nacionais. Aliás, uma das versões é liberada para todas as regiões.



Nos anos 90, o som do Dead Can Dance representou uma ponte entre o Ocidente e o Oriente. A riqueza de timbres nos surpreendia. Infelizmente, antes do final da década, Lisa e Brendan se separaram. Ambos chegaram a lançar discos solos. Lisa, inclusive, compôs algumas trilhas sonoras, uma delas a do filme "Gladiador". No entanto, nenhum disco teve o mesmo alcance dos trabalhos do grupo. Agora, vamos aguardar o resultado deste inesperado retorno.







terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Entre montanhas e planícies, os sons contemplativos de Kayhan Kalhor


Apesar de todos os problemas políticos, no campo das artes o Irã tem nos fornecido ótimos filmes, destacando grandes cineastas desde os anos 90. Nomes não faltam: Abbas Kiarostami, Mohsen Makhmalbaf, Samira Makhmalbaf, Jafar Panahi, Bahman Ghobadi e, agora, Ashgar Farhadi, vencedor do Oscar. No setor da música, não é tão diferente. Existem grandes músicos e compositores que tratam de manter a alma da música clássica e tradicional persa, difundindo-a pelo mundo com elementos acústicos contemporâneos. Alguns deles são Hossein Alizadeh (autor da trilha de "Tartarugas podem Voar", entre outros filmes), Hamid Motebassem, Bijan Chemirani e Kayhan Kalhor. Este último talvez seja o mais conceituado, pois já gravou por duas vezes pela ECM, gravadora alemã sobre a qual já falei a respeito em outros textos.

A música de Kayhan Kaylhor é profundamente introspectiva em sintonia com as tradições milenares e espirituais da região. Radicado atualmente nos Estados Unidos, ele toca um instrumento de arco e, lógico, cordas, chamado kamancheh, cuja forma lembra um pequeno berimbau, se isto é possível.


Nascido em Teerã, ele estuda música desde os sete anos de idade. Aos 13, já acompanhava grupos eruditos e tradicionais de música persa, como a National Orchestra of Radio and Television of Iran e o Shayda Ensemble of the Chavosh Cultural Center. Ao longo da carreira, gravou 15 discos. Três conquistaram indicações ao Grammy: “Faryad” (2005 ), “Without You” (2002) e “The Rain” (2003).

Afeito a parcerias, Kayhan costuma bater bola com músicos locais e estrangeiros. No Ocidente, integrou o time do projeto “Silk Road Ensemble: New Impossibilities” (2007), do festejado francês, de origem chinesa, Yo- Yo-Ma. Também participou da trilha sonora do filme de Francis Ford Copolla, “Youth Without Youth”, de 2007, composta pelo argentino de origem judia Osvaldo Golijov.
                          


Em 2012, Kayhan Kalhor lançou mais um interessante disco intitulado “I Will Not Stand Alone”, feito em parceria com Ali Bahrami Fard (foto 4), craque que toca o santoor, instrumento persa, parente do dulcimer ocidental, que produz um dos mais belos timbres do Oriente Médio.


Outra parceria de sucesso foi realizada com os indianos Shujaat Husain Khan (cítara e vocais) e Swapan Chaudhuri (tabla), com os quais criou o grupo Ghazal (foto 5), que lançou três trabalhos, sendo dois fundamentais “Moon Rise Over the Silk Road” (2000) e “The Rain”, lançado pela ECM em 2003, um dos mais belos discos orientais que já ouvi. O grupo, lógico, fundiu elementos musicais persas e indianos, criando uma música hipnótica e contemplativa. Kayhan Kalhor também obteve destaque com o CD “The Wind” (ECM - 2006), composto com o turco Erdal Erzingan,


 E antes que alguém troque as bolas, o Irã não é um país árabe. É persa. Os árabes são de origem semita. Os persas, indo-europeus. Durante a expansão do Império Árabe no século VII, os persas foram subjugados. Adotaram a religião islâmica e o alfabeto arábico, mas mantiveram a língua persa, também chamada de farsi, cuja variante no Afeganistão é conhecida como dari. Para os ouvidos ocidentais, a música persa pode soar como a árabe. No entanto, tem características próprias. Os instrumentos originais também se diferem. E para conhecermos um pouco dessas singularidades, um vídeo de Kayhan Kalhor ao lado de outros feras iranianos como Hossein Alizadeh e Majid Khalaj.









segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Uma volta ao mundo por meio da música

Numa tarde junina de 2003, estava passeando pelo Centro Histórico de São Luís quando topei com o músico maranhense Itaércio Rocha, radicado há anos em Curitiba, integrante do grupo Mundaréu, lá do Paraná. Entre um papo e outro, ele me presenteou com os dois primeiros discos do Terra Sonora (o CD de 1997 e “Continentes” gravado em 2001), um grupo também das terras de Paulo Leminski, que recria com impressionante primazia canções e melodias instrumentais de várias partes do mundo. Vou ser eternamente grato por esta cortesia.


O Terra Sonora produz um som único no Brasil, sem precedentes no país. Surgido em 1994, é integrado por músicos de formação erudita (pelo menos, a maioria), responsáveis pela elaboração de arranjos originais para temas étnicos e tradicionais de todos os continentes do planeta. É um trabalho minucioso. Rústico, porém elaborado com requinte. Uma preciosidade. Nos seus cinco discos, há músicas de 67 regiões do mundo, incluindo países como Egito, Romênia, Noruega, China, Colômbia, Moldávia, Grécia, Irlanda, Zimbábue, Butão, Marrocos, Mongólia, Armênia, Camboja, Haiti, Turquia e Moçambique. A combinação de instrumentos também é singular: viola caipira, derbak, violino, flautas, entre outros. São diversas referências musicais num único grupo em perfeita harmonia.




A pesquisa musical é de responsabilidade de Plínio Silva, flautista especializado em Música Antiga (medieval, renascentista e barroca). Integra também o Terra Sonora gente como o famoso violeiro Rogério Gulin e a vocalista Liane Guariente, considerada uma das melhores vozes de Curitiba. Aliás, o trabalho vocal é primoroso, um componente especial tanto pela pesquisa fonética de diversas línguas, quanto pelas diferentes técnicas usadas para cada canção.


No repertório, também estão presentes elementos tradicionais brasileiros, como modas de viola, a exemplo das composições de Rogério Gulin e Roberto Corrêa, sambas de roda da Bahia e temas de tradição nordestina, além de composições do lendário José Eduardo Gramani, idealizador e fundador do Ânima e diretor musical do primeiro disco do Terra Sonora. E por falar nisso, os discos do grupo têm produção caprichada. Todos vêm com fotos e livreto explicativo, algo semelhante ao padrão dos trabalhos do Ânima. E mais: recomendo a audição de todos os CDs. Inclusive, do quase solo de Rogério Gulin, “Orvalho”, lançado em 2009, no qual é acompanhado pelo Terra Sonora.



É importante saber que existe muita vida musical inteligente no Brasil, além das obviedades presentes na mídia. A melhor e pior música convivem no país em condições desiguais. Mas vamos deixar de lamentações. E como aperitivo, o Trilha Transe posta um tema do violeiro Rogério Gulin acompanhado pelo Terra Sonora, é claro, no lançamento de “Orvalho”.





domingo, 8 de janeiro de 2012

Por todas as manhãs do mundo



Na primeira postagem de 2012, o Trilha Transe presta homenagem ao mestre catalão da viola de gamba Jordi Savall, o nome mais importante da Música Antiga (medieval, renascentista e barroca) na atualidade. O gambista ou violista dirige e integra três grupos ao mesmo tempo: Hespèrion XXI (foto 3), Le Concert des Nations e La Capella Reial de Catalunya, responsáveis por algumas das mais primorosas e profundas interpretações da música dos referidos períodos.





No dia 23 de novembro de 2011, Jordi Savall perdeu sua esposa, a soprano Montserrat Figueras (1942 - 2011), que faleceu, em Barcelona, vitimada por um câncer. A morte da cantora lírica deixou uma grande lacuna no campo da Música Antiga. Ela integrava os três grupos criados pelo marido. Era, portanto, o complemento feminino do mestre. Sem o trabalho de Savall e Figueras, a Música Antiga, atualmente, não teria o mesmo alcance.





Enquanto o Hespèrion XXI interpreta, principalmente, repertórios dos períodos medieval e renascentista, o Le Concert des Nations é um grupo de câmara dedicado ao universo barroco. Como o próprio nome indica, La Capella Reial de Catalunya é um grupo vocal, que serve, especialmente, de complemento ao trabalho das formações anteriores.

Com cópias de instrumentos de época, o Hespèrion XXI e Le Concert des Nations fazem um rico passeio pela Música Antiga. São incontáveis discos produzidos, principalmente, nas décadas de 90 e 2000. Além da interpretação de obras inteiras de mestres do Barroco, a exemplo de Lully, Couperin, Marin Marais, Sainte Colombe, Henry Purcell, Samuel Scheidt e Bach, há inúmeras coletâneas com peças de Diego Ortiz, Antonio de Cabezon, Corelli, Pachebell, entre outros.




Ultimamente, Jordi Savall tem enveredado pela música do Oriente com a colaboração de músicos de Israel, Turquia, Afeganistão e Marrocos. É necessário destacar ainda os discos dedicados ao repertório dos judeus sefaraditas, que viveram na Península Ibérica, especialmente durante a ocupação árabe, sendo expulsos pelo reis cristãos da Espanha, em 1492, e de Portugal em 1496.  


Todos que apreciam boa música deveriam conhecer o trabalho de Jordi Savall. Os discos em formato de CD podem ser encontrados na gravadora de propriedade dele, Alia Vox, ou em livrarias brasileiras especializadas em arte de excelência. Bem abaixo, em destaque, estão as capas de alguns discos do Hespèrion XXI e do Le Concert des Nations, que aprecio.


O FILME



Em meados dos anos 90, assisti ao belo filme francês "Todas as Manhãs do Mundo" (Tous les Matins du Monde), de Alain Corneau (1943-2010), baseado no livro de Pascal Quignard, e fiquei impressionado com a história contada, a fotografia e a trilha sonora. A produção narra a suposta convivência entre os compositores barrocos franceses Sainte Colombe (1640 – 1700) e Marin Marais (1656 – 1728), mestre e discípulo da viola de gamba, respectivamente. Ao adquirir a primeira edição da revista Bravo, datada de outubro de 1997, tomei conhecimento que o intérprete das peças presentes no filme - de compositores como Lully e Couperin, além de Marin Marais e Sainte Colombe - era o gambista Jordi Savall e que a sublime trilha tinha vendido mais de 500 mil cópias em todo o mundo, um marco para a Música Antiga.




E por falar nisso, em 2012, o longa "Todas as Manhãs do Mundo" finalmente será lançado em DVD no Brasil. O mérito é da distribuidora Lume, de propriedade do maranhense Frederico Machado. Aguardem. No precioso trabalho, Marin Marais é interpretado por Guillaume Depardieu (jovem) e Gerard Depardieu (adulto), filho e pai na vida real. Vestiu a alma do rigoroso Monsieur de Sainte Colombe o ator Jean Pierre Marielle (foto 7). Um detalhe: Guillaume Depardieu (fotos 5 e 6) morreu em 2008 aos 37 anos, depois de uma vida conturbada devido ao abuso de álcool e drogas, dizem.



E voltando à primeira Bravo (que guardo até hoje), a edição trazia uma memorável entrevista com Jordi Savall, que à época estava prestes a se apresentar no Brasil. Nela, ele afirmava que a música anterior a 1800 era uma forma de medicina e matemática. Nunca esqueci desta reflexão.